domingo, 17 de abril de 2011

A Inveja, O Ciúme e... o outro.

Diariamente (ou quase diariamente) somos confrontados com notícias de crimes passionais, casos de violência doméstica e/ou violência de namoro. Não vou, de todo, focar-me em nenhum caso específico de agressão, nem proceder a qualquer elaboração de perfil psicológico de vítimas/agressores. Vou, sim, esmiuçar o que se encontra mais intrínseco e entranhado em todos estas situações: a Inveja, o Ciúme e… o outro.

A Inveja pode ser encarada como um sentimento muito primário, arcaico, vivido numa relação binária (a dois). Em termos simplistas, é querer algo que o Outro tem, implicando, igualmente, a destruição daquilo que me falta (incompletude narcísica) – "Eu quero aquilo, quero para mim e quero destruir o Outro". Exemplo prático: “Eu quero O carro que o João tem, quero muito aquele carro ou então que o João tenha um acidente e que parta o carro todo, assim já mais ninguém o tem.” 

É relevante não confundir o conceito de «inveja» com o de «cobiça». A inveja implica a destruição, aniquilação daquela parte da pessoa que Eu não consigo ter, enquanto na cobiça ambiciona-se algo igual ao que o Outro possui mas que não é exactamente o mesmo – “Eu tenho inveja dO carro dO João. Eu cobiço o carro que o João tem, gostava de ter outro igual”. 

No que remete para o Ciúme, tal como refere Melanie Klein, este é um avanço, em termos mentais, extraordinário: envolve a complexidade da mente. Enquanto a inveja envolve partes de pessoas, partir a parte que se quer destruir do objecto, no ciúme envolve a pessoa na sua totalidade, envolve uma triangularidade – desejo de vinculação – e um medo de perder o objecto de amor. Assim, a pessoa combate pela posse total e exclusiva do Outro, sabendo previamente que isso não é possível, pela consciência da existência de um terceiro elemento. Enquanto a inveja é dominada por um sentimento de falta e um desejo de apoderar-se, no ciúme está em causa um sentimento de perda ou ameaça de perda e um desejo de retenção. Num e noutro caso, o amor-próprio é altamente atingido – na inveja sob a forma de ressentimento, no ciúme sob a forma de humilhação.

Depois da Inveja e do Ciúme, é a vez do outro… A Gratidão.

A gratidão pode ser encarada como o pólo oposto da inveja. É, assim, o sentimento que possibilita alcance o lado Bom do Outro – a base das relações amorosas – e avaliar o que há de Bom em nós próprios. Aquele que sente gratidão pelo Outro, reconhece nesse mesmo Outro uma presença que se ausenta em si (o Outro tem algo que lhe falta). Podem pensar que este reconhecimento, esta consciência da minha falta inscrita no outro provocará qualquer tipo de sentimento depressivo no meu Eu. Pelo contrário. O esperado é o reconhecimento dessas mesmas faltas do meu Eu no Outro e tentar apoderá-las, não de uma forma destrutiva como é padrão do invejoso, mas sim como um processo normativo de troca nas relações.
Assim, os sujeitos invejosos, dominados por um Eu em desarmonia e enfraquecido, são «impostos» a procurar novos objectos de amor, uma vez que nenhum deles consegue satisfazer as suas necessidades (as faltas narcísicas) e as suas expectativas.

Em suma, deixo aqui uma fórmula do psiquismo criada por mim como forma de integração da informação exposta.


Explicação (tentando ser simples) - A dualidade integradora Amor(A)-Ódio(O) domina a instância do nosso ego (E). São os nossos dois pólos. Amor/Ódio, Prazer/Realidade, Vida/Morte. Associado ao artigo em questão, passamos para o ponto II. O Ciúme (C) é o denominador da instância maior Amor, uma vez que, como explicado no artigo, os ciumentos têm uma necessidade extrema pela procura de vinculação, com medo de perda de amor objectal. Assim como o Ciúme está para o Amor, a Inveja (I) está para o Ódio (O), com todas as pulsões agressivas características dos sujeitos invejoso - a destruição do objecto parcial ambicionado. Se ficássemos apenas com estes dois pólos, teríamos uma estrutura psíquica deficitária. Ao juntarmos G (Gratidão), juntamos a capacidade de projectarmos as nossas faltas, inseguranças e medos no Outro, onde construiremos, se tudo correr normativamente, uma relação empática com o Outro. Quando este terceiro passo se completa, estamos perante um psiquismo (Símbolo Psi), minimamente organizativo.


quarta-feira, 6 de abril de 2011

Morro sem ti... Vivo sem mim...

Dei por mim a pensar na morte e no significado que ela tem para a nossa vida e mais… a forma como a incorporamos banalmente no nosso sentido. E pensando na morte questionei-me sobre o real sentido de estar a «morrer» sem algo ou sem alguém.

Qual o significado-real da afirmação “Morro sem ti”? «Morrer» sem o Outro, ainda que na esfera simbólica, traduz a presença de um vazio interno esbatido na falta do Outro e um preenchimento do próprio imago quando o Outro se inscreve na nossa essência. Traduzindo… ao assumir a nossa morte sem o Outro, estamos a perpetuar a nossa própria morte como identidade própria uma vez que, nesse caso, encontramo-nos numa relação fusional com alguém onde as identidades se cruzam e se fundam. Se o Outro está, sou completo. Se o Outro não está, sou nada.

Todavia, “Estou a morrer sem ti” é, invariavelmente, uma proposição paradoxal, uma vez que na ausência do Outro a presença da Morte é uma constante-real no âmago da vida. A vida apenas subsiste inscrita no significado da morte onde na ausência da presença desse significado, o signo da vida carece da espontaneidade e da vivacidade que realmente lhe é característico.

Digo, a vida só ganha sentido se esse mesmo sentido tiver consciência da presença da morte, sendo que a morte só nos ganha significado se a vida que levamos tiver para nós um mesmo significado. Já alguém dizia "Vive como se fosse o último dia, pois um dia será mesmo o último."

Concluindo… Não se morre na ausência do Outro, vive-se, sim, com o pesar da nossa falta na ausência do Outro.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O Passado Existe? Uma reflexão...


"Só se cresce e progride quando o passado é história e o futuro uma incógnita".


Este "artigo" nasceu desta frase. Digo "artigo" porque de cientifico não tem nada, o que vou aqui expor não mais do que um momento de reflexão pessoal. Digo nasceu porque, de facto, desenvolveu-se no decorrer de uma discussão trivial do que é o passado.

A questão que predominou em toda a discussão foi, efectivamente, o que é o passado? É apenas pensamento? É apenas construção social? Que tipo de pensamentos? Emotivos? Que tipo de construção? Relaciona-se ao psiquismo humano? Que relação? Eis o meu vómito reflectivo...

Não creio na existência de um passado contemplado exclusivamente como um pensamento, independentemente de ter ou não a carga simbólica e emotiva que muitos vangloriam. A meu ver, e isto apenas numa reflexão pessoal, o passado é a base do nosso psiquismo, a sustentação de um presente que se espelha num futuro incerto, assombrado pelos fantasmas de um passado reprimido num momento desorganizado a que muitos chamam "hoje". 

Posteriomente a uma cogitação sobre o que é o passado e quais as implicâncias que tal conceito manifesta num presente que se transporta para um futuro, teorizei da seguinte forma toda essa evolução:

O passado pode ser encarado como o ID (ver post sobre Cisne Negro) da humanidade, é o aglomerado de pensamentos, desejos e fantasias que se foram adquirindo ao longo da nossa vivência que se vão tentando exprimir no nosso presente (EGO Humano). Contudo, como tudo na vida, este processo não é facilitado. É esmagado, é castrado por um futuro que teme em ser catastrófico (SUPEREGO), que tem a  carga moral suficiente para nos impedir de cairmos na falésia angustiante do desespero existencial do "hoje".

Enquanto escrevo isto, ocorre-me um novo insight… esta luta entre passado presente e futuro espelha-se num conflito edipiano da frustração humana… entre um Objecto, um Desejo e algo que impede a realização desse desejo. Isto é, em casos mais psicopatologiziantes (tenho o hábito neologizar, perdoem-me os leitores) o Eu (presente) tenta alcançar o Desejo de vivenciar o Passado, contudo a ameaça de um futuro agonizante que assume o Nome-do-Pai Lacaniano, insiste em cortar essa ligação, direccionando a pessoa para a via normativa. Quando o Nome-do-Pai não se impõe, a pessoa abandona a preocupação da construção de um futuro saudável, ficando presa na simbiose Passado-Presente, tal como a criança psicopatizada fica restrita à relação fusional (esquizoparanóide se preferirem) mãe-filho, não introjectando as leis paternas e sociais.

Se o passado é apenas pensamento não posso validar nem refutar na sua totalidade, é uma questão deveras complexa para alguém assumir qualquer posição extremista. Todavia, a meu ver, a existência humana que incorpora esses conceitos temporais de passado-presente-futuro, encontra-se circunscrita à triangulação edípica-base com que nos defrontamos no decorrer da nossa vida: Mãe-Pai-Criança, Eu-Pais-Outro, Eu-Outro-Companheiro, Objecto-Desejo-Proibição...

Acusem-me de pensamento psicanalítico radical, mas são estes orgasmos intelectuais que me estimulam a capacidade de percepcionar a realidade externa em cada ângulo, em cada prisma, em cada presença de ausência de radicalismos, em cada ausência de presença de dicotismos. 


terça-feira, 15 de março de 2011

Do Sono aos Sonhos: Experiências (Para) Normais

Usualmente questionam-me com algumas dúvidas a respeito do mecanismo do sono: «dormir 4h por dia faz mal?»,  «Não me lembro dos sonhos, isso quer dizer alguma coisa?», «Às vezes acordo com a sensação de estar a ser esmagado contra a cama, é assustador...», «É normal sonhar e saber que se está a sonhar?».

Pegando nalgumas dessas dúvidas, decidi dar lugar ao mundo dos sonhos neste post, tentando explicar como funciona o mecanismo normativo do sono e, posteriormente, esclarecer algumas destas dúvidas.


Entendendo o Mecanismo do Sono

O período do sono é dividido, essencialmente, em 4 fases ou etapas, como se pode verificar na figura que se segue. 


Após nos deitarmos e fecharmos os olhos, preparando-mo-nos para dormir, somos invadidos por ondas alfa que nos preparam para o período de sono. Quando adormecemos, entramos, então, num período de Fase 1 do sono que é caracterizada por apresentar sinais de alta frequência e baixa voltagem semelhante, porém mais lento, do que o estado de vigília (acordado). 

À medida que vamos avançando da Fase 1 para as Fases 2,3 e 4, verifica-se um aumento de voltagem e uma baixa frequência cerebral. Assim, a Fase 2 apresenta uma amplitude um pouco maior e uma frequência menor que a Fase 1. Com a entrada na Fase 3 verifica-se a presença ocasional de ondas delta (as maiores e mais lentas), sendo que a Fase 4 é definida apenas por estas mesmas ondas (entramos no sono profundo). 

Quando antigimos a Fase 4 do sono, permanecemos por um tempo nessa condição e voltamos, em seguida, para o sono da Fase 1. Todavia, esta Fase 1 não é igual à verificada pela primeira vez. A partir do segundo ciclo, a entrada nesta fase é acompanhado por movimentos rápidos dos olhos (o chamado sono REM) e por uma perda do tónus muscular do corpo (aquela visão por vezes cómica que vemos na pessoa que está ao nosso lado a dormir e com espasmos). Cada ciclo do sono (de uma Fase 1 a Fase 4) dura, sensivelmente, 90 minutos, sendo que uma grande porção deste tempo é passado na Fase 1 (como se pode ver no gráfico)

Sono e Sonhos

Antes de mais, sonhamos em todas as fases do sono. Contudo, lembramo-nos com mais detalhe dos sonhos associados à fase REM (fase 1). Ou seja, enquanto os sonhos nas fases Não-REM (2,3,4) giram muito em torno de experiências indíviduais («sonhei que caí»), nos sonhos REM somos capazes de contar uma história mais completa («sonhei que estava a passear, encontrei um amigo e ficámos à conversa»).


Curiosidades sobre o Sono e os Sonhos


- Estímulos externos podem ser incorporados nos sonhos (por exemplo, ao adormecermos numa noite tempestuosa, podemos sonhar com explosões).
-  Algumas pessoas afirmam que nunca sonham ou raramente sonham. Contudo, apresentam um sono REM à semelhança das pessoas que dizem que sonham muito. Se forem acordados na Fase REM, conseguem relatar os sonhos.
-  Erecções penianas não estão relacionadas com sonhos de conteúdo sexual, uma vez que bebés apresentam o mesmo tipo de erecções nocturnas. Existem duas hipóteses aceites para este fenómeno: circulação sanguínea por parte do corpo para manter o órgão irrigado ou acumulação de urina na bexiga, provocando um estímulo nervoso reflexo que favorece a erecção (esta última é a mais aceite).
-  Sonambulismo e sonhos: a maioria das pessoas acredita que o sonambulismo ocorre enquanto sonhamos, o que não corresponde à realidade. Esta condição é vísivel com mais frequência na última fase do sono, a Fase 4.
-  Se não sabem porque é que nos custa tanto levantar de manhã, eis a resposta: Cortisol, a anestesia humana. Actua no nosso corpo a partir das 7h da manhã e provoca em nós uma sensação de relaxamento muscular. Daí que ao acordarmos nos apeteça tudo, menos levantar.
- Porque é que dormimos?  Existem duas teorias explicativas deste nosso comportamento:
A) Teorias da Recuperação do Sono: estar acordado perturba a estabilidade fisiológica interna do corpo. O sono apresenta, assim, uma função de recuperação e de recarga das energias.
B) Teorias Circadianas do Sono: tem uma base evolucionista, ao defender que os humanos são programados para dormir à noite independentemente do que nos acontecer durante o dia. Segundo estas teorias, evoluímos para dormir porque o sono protege-nos de acidentes e de predadores nocturnos.

Análise Comparada do Sono

Quando comparadas as horas de sono com outros mamíferos, surge uma questão importante no que nos toca a nós, humanos: Será mesmo necessário dormir as 8h? Uma investigação com diversos animais verificou a seguinte distribuição de horas de sono por dia: Preguiça Gigante - 20h;  Gato - 14h; Macaco - 9h;  Cavalo - 2h. Foram encontrados com muitos mais animais, mas tentei ir aos extremos para depreender dois aspectos essenciais: primeiro o sono não é uma função superior exclusiva do ser humano, segundo não parece existir um número de horas médio para os mamíferos. Será, então, necessário dormir as 8h recomendadas?

Para isso, vamos recordar o caso famoso de Leonardo Da Vinci. O pintor italiano adoptou um sono polifásico que consistia na seguinte redistribuição: dormir 15 minutos em cada 4 horas, limitando, assim, o seu tempo de sono a 1,5h por dia. Em diversas experiências com humanos que tentaram adoptar este sistema de sono polifásico, os resultados foram surpreendentes e consistentes:
a) Antes de tudo, é necessário um longo periodo de adaptação a este ciclo, de cerca de 2 a 3 semanas.
b) Os individuos sujeitos à experiência mostraram-se satisfeitos e não evidenciaram danos em testes de desempenho.
c) Inicialmente, estes invidíviduos só apresentavam sono de ondas lentas, contudo, com o passar do tempo retomaram as proporções relativais usuais de sono REM e sono de ondas lentas.

Uma das conclusões deste e outros estudos similares foi que a privaçao de sono em humanos é que indivíduos impedidos de dormir passam a fazê-lo de forma mais eficiente no horário estipulado. Assim, em vez de demoraram mais tempo a entrarem no sono profundo ao dormirem 8h, com as 4 ou 5h diárias, entram mais facilmente nessa fase. Contudo, este sono, como foi referido, exige hábito.


O Sono e o (Para)normal

Diversas são as histórias que vulgarmente somos confrontados, ainda hoje, sobre experiências fora do corpo, ou a sensação de estarmos a ser esmagados por espíritos durante a noite. Para acabar este post em beleza, vou destroçar os corações dos mais crentes...

Os Espíritos: Paralisia do Sono é o nome do fenómeno que muitos retratam quando acordam, a meio do sono, enquanto o bloqueio do impulso motor ainda está activo. Estando o bloqueio motor activo, a pessoa não se consegue mover e experiencia uma sensação assustadora de estar a ser empurrada para baixo, como se «espíritos estivessem em cima dela».

A Alma Fora do Corpo: Esta sensação de termos a alma a sair do corpo, ocorre pela situação inversa à apresentada em cima. Ou seja, experiênciamos esta sensação quando estamos acordados e os nervos motores começam a ser bloqueados, preparando-nos para o período de sono. Assim, temos a sensação de um formigueiro e de uma leve levitação. É tudo cérebro meus caros.

por fim... 

Os Sonhos lúcidos ocorrem quando os lobos frontais (responsáveis pela nossa consciência, mediação de impulsos sociais, funções superiores, racionalidade) acordam durante o sono mas o bloqueio de sinais de entrada e de saída permanecem. Como os lobos frontais estão activos, conseguimos deduzir que, realmente, estamos a sonhar. 

terça-feira, 1 de março de 2011

E o Óscar vai para...

"A perfeição não é apenas controlo. É também sobre o desapego. Surpreenda-se para que possa surpreender o público. Transcendência. Muito poucos têm isso neles. "


O Filme

Nina Sayers  é bailarina de uma companhia nova-iorquina de balé. A sua vida, como a de todos nessa profissão, é inteiramente consumida pela dança. Ela mora com a mãe, Erica, bailarina aposentada que incentiva a ambição profissional da filha. O diretor artístico da companhia, Thomas Leroy decide substituir a bailarina principal, Beth MacIntyre, na apresentação de abertura da temporada, O Lago dos Cisnes, e Nina é a sua primeira escolha. Mas surge uma concorrente: a nova bailarina, Lily que deixa Thomas impressionado. 

O Lago dos Cisnes requer uma bailarina capaz de interpretar tanto o Cisne Branco com inocência e graça, quanto o Cisne Negro, que representa malícia e sensualidade. Nina encaixa-se perfeitamente no papel do Cisne Branco, porém Lily é a própria personificação do Cisne Negro. As duas desenvolvem uma amizade conflituosa, cheia de rivalidade, e Nina começa a entrar em contacto com o seu lado mais sombrio...

Fonte - Wikipédia.

Abram-se as cortinas...  

No decorrer desta produção cinematográfica, percebe-se a existência de duas Faces de cada um de nós, de dois Cisnes – O Cisne Branco (o nosso lado mais puro, mais apelativo) e o Cisne Negro (que representa os nossos fantasmas e as nossas profundezas) – e Nina veio ao mundo para vestir, decididamente, a pele do Cisne Branco. Filha única de uma mãe frustrada e completamente castradora que lhe controla toda a vida, apresenta uma relação com o mundo da sexualidade de caris infantil, imaturo, arcaico, verificando-se uma simbiose (uma dependência) total pela figura materna.

O Pai de Nina é desconhecido, ausente, não sendo mencionado no decorrer do filme, dando a ideia ao espectador de uma relação exclusiva e dedicada entre mãe-filha, onde o controlo e a obsessão são o padrão predominante (prestem atenção à figura do brinquedo-bailarina que fica na mesinha-de-cabeceira de Nina a tocar como símbolo de controlo mental). Como já foi discutido em posts anteriores, esta ausência do pai (que tem o papel de quebrar a relação simbiótica mãe-filho) não permitiu a Nina uma resolução do Complexo de Édipo na idade adequada, tendo recorrido à projecção da figura paterna no seu professor Thomas Leroy, a quem tenta agradar obsessivamente (como se o tentasse seduzir fugazmente para compensar a presença da sua ausência na idade onde essa mesma ausência se mais presenciou (confuso? Adiante…).

Toda a procura obsessiva tanto pela sedução do Pai (Nome-Do-Pai) como pela busca da perfeição como bailarina, circunscreve-se à sintomatologia neurótica (única) que a protagonista padece, sendo os demais de caris psicótico onde existe uma fragmentação do Eu, resultante da relação dependente da mãe (para perturbar o desenvolvimento de uma criança, uma mãe não necessita de ser cruel e mal-tratante… criar uma excessiva dependência e controlo para com o filho, terá os mesmos efeitos nocivos como é retratado neste filme). O que é isto da Fragmentação do Eu? É o que já foi falado no post relativo à personagem Dorian Gray – é ver o Mundo Externo ora como Bom ora como Mau (comportamento predominante nos psicóticos), não havendo integração desta informação. Simplificando, o individuo não consegue reconhecer que uma pessoa pode ser boa e má ao mesmo tempo, as duas facetas fazem parte do ser humano. Não compreendendo isto, quando o Outro é frustrante é categorizado como Mau, Cruel, Vil, contudo, quando é gratificado é categorizado como Bom, Prazeroso, Magnífico (pensem nos sentimentos presentes nos inícios do namoro e nos finais de namoro).


Esta dualidade Cisne Branco-Cisne Negro pode ser vista, igualmente, através da Segunda Tópica de Freud – Id, Ego, Superego. Sendo muito simplista para não complicar, o Id representa os nossos desejos, as nossas necessidades (quando nascemos somos apenas Id), o Superego representa a nossa consciência moral (o que nos faz sentir culpado numa determinada situação) e o Ego é o nosso Eu, a nossa consciência. O que se verifica neste filme é que para a protagonista existe um Id (Cisne Negro, que representa os desejos mais profundos, o nosso lado mais obscuro) e um Superego (o Cisne Branco que representa o controlo castrador da mãe para que Nina seja uma bailarina perfeita)… contudo, devido a esse Superego punitivo, não se verifica a existência de um Ego organizado, onde entramos, assim, no mundo da psicose.

Toda essa clivagem entre Bom / Mau, Id/Superego, Preto/Branco é observável em todo o filme, nas personagens (Nina de Branco, Mãe de Preto) e nos cenários. Verifica-se, igualmente, a presença de um símbolo rico em psicanálise e que já foi abordado neste espaço… o Espelho, como símbolo unificador do Eu (teoria de Lacan sobre o Estágio do Espelho), mas que para Nina espelha os seus fantasmas, o seu Id.

A entrada da personagem Lilly também é fulcral neste enredo pois serve de objecto onde Nina irá projectar o seu ódio pela mãe, sendo agora Lily a figura vestida de preto, o Cisne Negro perfeito, atraente, sem culpas. Contudo toda esta pressão do Superego (mãe) para que Nina mantenha-se na pele do Cisne Branco e não liberte o Cisne Negro (o seu Id) começa enfraquecer e numa altura do filme vemos Nina com feridas nas costas onde as penas pretas começam a surgir (rompimento na simbiose mãe-filha).

A partir daí, delírios e paranóias são experienciadas por Nina para marcarar a inveja do Outro, Outro este que tem o que ela deseja, que conseguem controlar o seu Id, e mantém uma estrutura do Ego estabilizada. Para além disso, verificamos que a sexualidade de Nina mantém um papel de destaque no enredo… Primariamente, o conceito de masturbação onde a sexualidade ainda é muito infantil, não sendo capaz ainda de direccioná-la para o outro, ficando muito ainda no plano auto-erótico. Secundáriamente, temos a cena de amor entre Nina e Lily onde esta última tem tatuada nas costas as asas negras do Cisne, colocando-se a hipótese de uma entrega total de Nina para com o seu Id...

Um filme surpreendente e que valeu a Natalie Portman um Óscar para melhor Actriz. 
Recomendo vivamente a quem ainda não viu.


"Eu sabia que o Cisne Branco não seria um problema. O verdadeiro trabalho seria a sua metamorfose na sua irmã gémea do Mal"

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Balanço Trimestral do Blog... com Humor


Após 3 meses de produção, o Estranho Quotidiano angariou  cerca de 50 seguidores e de 2.500 visitas. 
Um obrigado a todos os leitores que vão fazendo este espaço crescer a cada momento com as apreciações e opiniões. Aproveito este artigo para reforçar que são bem-vindas sugestões de temas que gostariam de ver debatidos neste espaço ou críticas, sejam elas negativas ou positivas, de como se tem vindo a desenvolver este blog.

Cumprimentos,
Cláudio

PS: Deixo agora aqui um momento humurístico



Bem-vindo à Linha Telefónica de Psicologia!
Se é obsessivo-compulsivo, por favor carregue no 1 repetidamente.
Se é dependente, por favor peça a alguém para carregar no 2.
Se tem múltiplas personalidades, por favor carregue no 3, 4, 5, e 6.
Se é paranóico-delirante, sabemos quem você é e o que quer. Por favor mantenha-se em linha para que possamos identificar a chamada.
Se é esquizofrénico, ouça com atenção e uma pequena voz dir-lhe-á em que número carregar.
Se está deprimido, não interessa em qual número carregar. Ninguém responderá.
Se está delirante e ocasionalmente tem alucinações, por favor esteja consciente de que a coisa em que está a segurar junto à sua cabeça está viva e prestes a morder-lhe a orelha. 

Neurótico VS Psicótico 
Um psicótico pensa que dois mais dois são cinco.
Um neurótico sabe que dois mais dois são quatro - mas detesta-o. 

Quantos psicólogos são necessários para mudar uma lâmpada?
1- Nenhum. A lâmpada mudar-se-á quando estiver pronta para isso.
2- Apenas um, mas a lâmpada tem que querer ser mudada.
3- Apenas um, mas necessita de nove visitas.
4- Quantos é que achas que são necessários? 

Perfil do Psicólogo 
Psicólogo não adoece, somatiza.
Psicólogo não estuda, sublima.
Psicólogo não conversa, pontua.
Psicólogo não fala, verbaliza.
Psicólogo não faz sexo, liberta a libido.
Psicólogo não é indiscreto, é espontâneo.
Psicólogo não passa vergonha, surta.
Psicólogo não tem ideias, tem insights.
Psicólogo não resolve problemas, fecha gestalts.
Psicólogo não pensa nisso, respira nisso.
Psicólogo não muda de interesse, muda de figura e fundo.
Psicólogo não come, internaliza.
Psicólogo não pensa, abstrai.
Psicólogo não é gente, é um estado de espírito.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

(Des)construindo o Amor

Neste dia tão aclamado e emocionalmente consumista que, pessoalmente, não contemplo com grande interesse, vou-me desleixar e não escrever nada pessoal sobre este dia dos Namorados e sim, partilhar, um artigo interessante que li há pouco tempo num espaço semelhante a este, chamado Significantes. Coloco o link no final do artigo. Espero que vos faça pensar.

O artigo chama-se, justamente:
 
(Des)Construindo o Amor 


“Nada é perfeito”.

Repetimos esta frase-clichê como papagaios, sem de fato levá-la a sério.

Síndrome de Cinderela, efeito colateral de quem assiste novelas, exigências em excesso, ou, seja lá como se possa chamar isso, o fato é que cada pessoa nesse mundo, quando se trata de amor, no fundo acredita que vai achar a sua cara metade, a tampa da sua panela, o seu príncipe encantado.

E não me parece que a culpa seja do Walt Disney, do Silvio de Abreu, do Manoel Carlos ou do fabricante da Barbie. Talvez seja estrutural.

Seres incompletos afetivamente, nós crescemos pensando que alguém/algo nos completará.

Inicialmente, quando crianças, há quem fantasie que o nascimento de um irmão possa suprir essa falta. Depois há quem queira um amor, não, não era bem esse, e nem esse, e nem aquele, e por aí vai. Pulando de amor em amor, ou/e queixando-se eternamente.

Volta e meia, escuto as pessoas dizerem – Ah, mas nada é perfeito! – em tom de lamentação.

Mas felicidade não é se conformar com o pouco que se tem. Ser feliz é coisa de outra ordem.

Saber, de fato, que nada é perfeito é um modo de felicidade. É ouvir o que dizemos. É nos levarmos a sério sem perder a leveza.

Apaixonar-se é um convite ao outro para atingir a perfeição, inalcançada sozinho. É um convite para atingir a perfeição, aquela inatingível. É, assim, também, um convite à frustração. E ela chega. É aí, então, que o outro aparece despedaçado, como sempre foi. Mas de repente, aquilo que deveria ser óbvio, vira novidade.

Há que se elaborar o luto da morte daquele amado, daquele ser que foi idealizado. E, talvez, seja só aí que o amor pode nascer. A partir da desconstrução do ideal do outro, ou de pelo menos, parte dele. O (verdadeiro) amor nasce do luto.

Fonte: http://significantess.blogspot.com/2011/02/des-construindo-o-amor.html