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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Quem tem medo do Lobo Mau?

O conto do Capuchinho Vermelho é uma das obras infantis que podem ser retratadas a partir de diversos conceitos psicanalíticos que nos fazem compreender com que principio vamos regendo a nossa vida, isto é, se pelo Princípio do Prazer, se pelo Princípio da Realidade. 

Não me alongando em demasia nestes conceitos cunhados por Freud no ano de 1911, o Princípio do Prazer verifica-se a partir do desejo de termos prazer no imediato, no aqui-e-agora. O adiamento da gratificação ainda não se encontra interiorizado e, assim, sente-se necessidade de se ceder para um prazer imediato. Como por vezes este palavreado todo apenas complica, esclarecerei com um exemplo típico do quotidiano: a época dos Saldos:

Imaginem a situação de uma senhora que passeia pelo centro comercial e vê umas calças deslumbrantes com que se apaixona de imediato. Dirige-se a uma das empregadas da loja, questionando "quanto custam este par de calças?" ao que a empregada responde "custam 50 euros mas estarão em saldos para a semana que vem". Diversas são as pessoas que, regendo-se pelo Princípio da Realidade, conseguem adiar a gratificação e comprarão as ditas calças passado uma semana. Contudo, para outras pessoas, esta espera pode ser tortuosa devido à angústia que essa espera comporta, onde dúvidas como "se calhar as calças já não estarão cá / é melhor comprar já antes que alguém as compre" são frequentes. Assim, regendo-se pelo Princípio do Prazer, desembolsam, de imediato os 50 euros.

No conto do Capuchinho Vermelho conseguimos traçar dois cenários possíveis para a protagonista principal quando a mãe lhe pede para ir levar um lanche à sua avó:

A) Percorrer a beleza da floresta, com toda a beleza poética que lhe é característica (pássaros, flores, borboletas, etc), isto é, cedendo ao Princípio do Prazer representado pelo Lobo, que permite uma fuga ao seu lar seguro e confortável: «Olha como são bonitas as flores à tua roda. Porque não dás uma vista de olhos? Andas com um só propósito e uma tal concentração, como se fosses para escola, enquanto tudo o resto aqui na floresta é tão belo.»

B) Percorrer o caminho referido pela Mãe que representa o Princípio da Realidade, como o mais seguro: «Caminha com cuidado, não saias da estrada. E quando chegares a casa da avó não te esqueças de lhe dar os bons dias e não comeces a vasculhar por toda a parte»

Como todos conhecem a história do Capuchinho Vermelho, não tenho a necessidade de explicar detalhadamente o desenrolar da história. O Capuchinho Vermelho cede ao Princípio do Prazer, desprezando as figuras Maternas (representadas pela Mãe e pela Avó) constituindo-se, assim, um conflito edipiano: desejo de autonomia / procura de prazer e morte simbólica do progenitor.

Para além destas personagens, surge uma outra que, normalmente, é sempre deixada para segundo plano (sabe-se lá porquê), que é a personagem do Caçador. Comummente é apenas mencionada no final da história com uma breve passagem "e surgiu um caçador que matou o lobo e salvou a pobre menina" bla bla bla.

Contudo, no plano estrutrural da história surge como um marco relevante pois é, juntamente com o Lobo, o constituinte da Figura Masculina que se desdobra, assim, em dois polos:

1- O desejo, a sedução, o prazer, representado pelo Lobo
2 - A responsabilidade, a dureza, o heroísmo paterno representado pelo Caçador

Estes dois pólos representam as duas faces da Figura Paterna: o Herói destemido das crianças que, até uma cerca idade, acreditam que consiga fazer tudo, e por outro lado, a imagem de sedução das meninas mais novas (é curioso ver como algumas se gostam de produzir e maquilhar e desfilar pela sala de estar enquanto o pai observa, ou quando abraçam o pai e dizem que querem casar com ele).

Somos presenciados, assim, com o clássico complexo de édipo feminino onde para a menina a Figura Materna (mãe e avó) são postas de parte pois negam-lhe o prazer, e procuram a sedução do elemento do sexo oposto, do pai, neste caso representado pelo Lobo.

Bruno Bettelheim, psicanalista francês, faz uma nota a respeito da importância da cor – vermelho, como simbolismo das emoções violentas e sexuais, referindo, igualmente, a relevância do diminutivo – capuchinho e não capucho, de modo a reforçar a imaturidade da menina. Ela é pequena demais para lidar com as suas energias emergentes, com as suas tendências «vermelhas». O perigo, para ela, é pois, a sua sexualidade nascente, fonte ambivalente de salvação e ameaça destrutiva. Ela luta dividida entre o sua vontade consciente de fazer o que é seu dever e o desejo inconsciente de triunfar sobre a avó (simbolicamente a Mãe).

A sedução atinge o auge quando a menina se deita na cama com o lobo e, posteriormente, o lobo a engole. É como se o conflito edipiano chegasse ao fim. Depois da rejeição à Figura Materna e entrega ao Princípio do Prazer, o Capuchinho percebe os seus riscos e sai do ventre do Lobo através de um Pai heroico. O Capuchinho Vermelho renasce nesta etapa vital. Já não é a menina que passeia pela floresta emersa na fantasia, entregando-se constantemente ao Princípio do Prazer e de todos os perigos que o comporta, mas já consegue fazer a transposição para o Princípio da Realidade.

Este é um dos mais belos contos infantis que retratam, com todo o simbolismo que é característico, a maturação psíquica na terna infância que poderá condicionar as escolhas futuras num desenvolvimento mais tardio. Contudo, não é invulgar, encontrar sujeitos, neste estranho quotidiano, que ainda permanecem perdidas na floresta encantada, num jogo de sedução seja com elas próprias como para com um Lobo que as impede de alcançar o Princípio da Realidade.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Dear Mr. Gacy: Autópsia de um Serial Killer

Há uns tempos vi um filme bastante interessante baseado em factos reais que retrata a relação entre Jonh  Wayne Gacy (um dos mais famosos Serial Killers dos EUA) com Jason Moss, um estudante obcecado pela vida de Gacy: Dear Mr. Gacy. Deixo o trailer no final do post para os curiosos.
Posteriormente ao visionamento do filme, surgiu-me a ideia de escrever algo a respeito deste assassino, começando por traçar o seu percurso biográfico e, em seguida, por tentar perceber alguns acontecimentos de vida que considero significativos.
Para este artigo recomendo a (re)leitura do post acerca do Complexo de Édipo.


Notas Biográficas

"John Wayne Gacy Jr., também conhecido por O Palhaço Assassino ou Pogo, nasceu a 17 de Março do ano de 1942 em Chicago. Filho de pai alcoólico, teve uma infância traumática , sendo frequentemente espancado e alcunhado de “maricas” pelo próprio pai. Quanto à sua relação com a sua mãe, esta era bastante próxima com alguns traços de identificação.
Casou em 1964 e nesse mesmo ano teve a sua primeira experiência homossexual enquanto a sua mulher estava no trabalho com o seu filho Michael.

Anos mais tarde, Gacy recusaria ser homossexual, conformando-se que era bissexual. O seu casamento chegou ao fim quando, no ano de 1968, Gacy foi preso e condenado por ter sido encontrado a praticar actos sexuais com um jovem na casa-de-banho de um bar.

Os homicídios começaram em Janeiro do ano de 1972 com a vítima Timothy McCoy, um rapaz de 18 anos. As suas vítimas foram sempre do sexo masculino, jovens de preferência, novos e musculados. Com uma tendência denotada para a pedofilia, tinha um desprezo particular por homossexuais, mas, também, por políticos. Persuadia as vítimas a acompanhá-lo até à sua casa com promessas de emprego, onde, depois, as embebedava ou convidava para a demonstração de algum truque, dada a sua habilidade como palhaço amador. Porém, após amarradas à cadeira, as vítimas já não se soltavam. Gacy apreciava a leitura da bíblia enquanto decorriam as violações e estrangulava vagarosamente, estilo garrote, altura em que também se vestia de palhaço. A sua “assinatura” passava por enfiar na boca ou na garganta das vítimas as suas próprias roupas interiores, para lhes abafar os gritos.

As suspeitas nunca caíram sobre Gacy até ao dia 12 de Dezembro de 1978quando estava a ser investigado a respeito do desaparecimento de Robert Piest, um rapaz de 15 anos, que fora visto a ultima vez com Gacy e quando um vizinho alertou a policia, estranhando os cheiros nauseabundos que escapavam do número 8213 da West Summerdale Avenue. Gacy explicou que era, apenas, “um entupimento nos canos de esgoto”. Mas, mesmo assim, a polícia decidiu investigar. No porão, sob um alçapão oculto, foram encontrados na fossa sanitária – que Gacy tinha mandado construir particularmente grande – os restos de vinte e nove corpos de jovens entre os nove e os vinte e sete anos de idade, denotando sinais de tortura, violências sexuais e estrangulamento.


Na tentativa de explicar o seu comportamento, Gacy declarou que havia quatro John’s: o empreiteiro, o palhaço, o político e o assassino, sendo que este ultimo o possuía em certas alturas, como se fosse um “mau eu”, e era ele que cometia os crimes.

Todos os sete psiquiatras que o examinaram concordaram que ele era inconsciente e contraditório, mas, nenhum diagnosticou múltiplas personalidades, tendo sido considerado competente para ser julgado.

Em 1980 foi condenado pelos seus 33 homicídios confirmados a 21 prisões perpétuas e 12 penas de morte. No dia 10 de Maio de 1994 foi executado na cadeira eléctrica. Durante os 14 anos que teve preso teve mais de 400 visitas e recebeu mais de 27 mil cartas. Aproveitou para se divorciar, tentou o suicídio e dedicou-se à pintura."



Autopsia de um Serial Killer

Através do seu relato biográfico conseguimos perceber que a infância, desde a mais tenra idade, de John Wayne Gacy foi severamente marcada por violência, seja ela psicológica ou física, por parte da sua figura paterna.

Como foi explicado no artigo referente ao Complexo de Édipo, é nos primeiros anos de vida, mais especificamente entre os 3 a 5 (embora as idades sejam variáveis de sujeito para sujeito) que cada um de nós vai integrando as regras e os limites da realidade externa através do Pai (em psicanálise Pai ou Mãe poderá não corresponder ao progenitor e sim ao sujeito que para a criança representa esse determinado papel, ou seja, a Mãe pode ser a tia e o Pai um vizinho), sendo que no final desse conflito edipiano na triangulação mãe-bebé-pai, o rapaz (neste caso específico), irá identificar-se com o progenitor do mesmo sexo (o pai) e escolher como objecto de amor a sua referência (a mãe), procurando, assim, noutra mulher o amor que o seu pai procura na sua mãe. 

No historial de Gacy percebe-se, numa primeira análise, duas falhas neste processo:

1 – Na interiorização de regras e limites onde não houve propriamente um Pai na vida de Gacy que lhe permitisse distinguir o certo do errado, havendo apenas um sujeito que lhe mostrava que a base da educação era a agressividade e a humilhação.

2- Processo de identificação com o Pai falhou, sendo o próprio Gacy a referir a Mãe como modelo identificatório podendo, ou não, ser uma possível génese da escolha do objecto homossexual para Gacy, ou seja, existe uma fixação tão grande na mãe que impossibilita o deslocamento do afecto para outra mulher. Esta fixação pela mãe joga em paralelismo com o medo pelo pai que iria contribuir para um desvio da escolha do objecto heterossexual, seguido pelo pai, e assim evitar seguir o seu modelo paterno.

Todavia, Gacy, numa primeira fase renuncia por completo a sua homossexualidade, uma vez que ao conformar-se com esta orientação sexual estaria, por hipótese, a subjugar-se aos repreendimentos do Pai (quando este lhe chamava maricas por diversas ocasiões). Atenua este seu lado, afirmando-se como bissexual, utilizando diversos mecanismos de defesa do ego (ver artigo Mecanismos de Defesa) como forma de preservar a sua estrutura mental, tais como a repressão / recalcamento do desejo homossexual assim como deslocamento da sua angústia e cólera contra indivíduos homossexuais (deslocamento este associado à génese dos seus crimes).

Gacy manifestava um padrão consistente no que respeitava à escolha das suas vítimas, que assentava em dois pontos de referência: indivíduos do sexo masculino assim como fisicamente atraentes. A explicação de tal conduta poderá residir, tal como fora anteriormente mencionado, na expressão do seu subconsciente do ódio que sentia por si mesmo, devido à sua homossexualidade, adoptando toda uma projecção de sentimentos contra aqueles que se moldavam à sua imagem, espelhando, por assim dizer, todos os seus conflitos.

Um outro aspecto relevante de se salientar nos actos de Gacy é o facto de que este, aquando as violações das suas vítimas, apresentava uma apetência peculiar pela leitura da bíblia. Com este padrão comportamental, possivelmente, Gacy tentaria a via da desculpabilização e do perdão pelos seus actos e impulsos que não conseguia controlar, subjugando-se a Deus (Deus que, se pensarmos, representa a Imagem Suprema do Homem, a Entidade Absoluta, o Agente Autoritário Que Faz As Regras, ou seja, o Pai para a criança na fase edipiana).  

Foram estes os elementos principais que me chamaram à atenção na história de vida de John Wayne Gacy que, a meu ver, mereciam um pouco de reflexão pois considero que acabam por ser semelhantes a muitas vidas de muitos serial killers
Deixo, então, o trailer do filme que recomendo a quem se interessa por este tipo de crimes e por tentar perceber o funcionamento psíquicos destes indivíduos.

Futuramente, irão chegar mais Autopsias... 



domingo, 21 de novembro de 2010

Ainda com Édipo… Dentro da Psicopatia

Como foi explicado no post anterior, o Complexo de Édipo ocorre, mais ou menos, por volta dos 3-5 anos de idade, quando o pai quebra o forte laço afectivo da criança pela mãe, impondo certos limites como, por exemplo, ao mandar o filho ir dormir para a sua própria cama porque já não tem idade para dormir com os pais.

O papel da figura paterna reflecte, assim, as normas, as leis, o certo e o errado, as regras para o filho seguir. Pacientes psicóticos não chegam a atingir esta etapa vital, sendo que a relação dual que referi no último post (mãe-criança) nunca se extinguiu, originando dificuldades por parte do filho em formar a sua própria identidade e interiorizar regras e limites.

Édipo na Psicopatia
Sejam psicopatas ou não, várias são as crianças que passam pelo Complexo de Édipo. O que determina possíveis desvios e discrepâncias entre a normalidade e a psicopatia é a resolução desse mesmo complexo. Ou seja, tal como um indivíduo normal, um psicopata, na sua fase edipiana, manifesta grandes sentimentos afectivos pela sua mãe e o pai, à semelhança de muitos outros, também se apresenta como figura de autoridade, impondo regras e limites.

As diferenças que podemos encontrar nestes casos, não são tanto ao nível da figura paterna mas sim da figura materna. O pai impõe regras e limites ao filho (colocando, por exemplo, na sua cama), o filho apreende essas regras e limites, contudo, estamos perante uma mãe sedutora que, quando o pai não está presente, dirige-se ao quarto do filho e o leva, novamente, para a cama.

Desta forma, a criança forma a seguinte representação: “existem leis, normas e limites, existem castigos quando a lei não é cumprida, mas… existem, igualmente recompensas quando se foge à lei, principalmente quando a figura de autoridade (pai/sociedade) não se encontra a observar”.

Em suma, um psicopata é um individuo aparentemente normal, que conhece as regras, contudo não sente culpa (adquirida no complexo de édipo) e, além disso, sabe que o desvio à lei poderá trazer recompensas.
Apresento, em seguida, o caso de um dos mais famosos psicopatas – Ed Gein – cuja sua história inspirou diversos filmes de terror, nomeadamente Psycho e Massacre no Texas. No desenrolar da sua biografia, diversos são os pontos que são realçados e que fazem prever, segundo o que foi teorizado anteriormente, o desenvolvimento de uma psicopatia marcada por fixações na fase edipiana. Deixo ao leitor, a tarefa de esmiuçar este mesmo caso, encontrado os referidos pontos sintomatológicos.

Ed Gein no divã 
Edward Theodore Gein, mais conhecido como Ed Gein, nasceu a 27 de Agosto de  1906  na  cidade  de  Plainfield,  Winsconsin,  EUA.  Ele  morava  numa  quinta  em Plainfield, com o seu irmão Henry, cinco anos mais velho, a sua mãe Augusta e o seu pai George, que era  alcoólico e não se importava com a educação dos filhos. A mãe sempre foi a figura dominante  ao longo de toda a vida de Gein e o pai apenas uma figura débil e carente de opinião.

A infância de Ed desenrolou-se debaixo do fanatismo religioso da sua mãe que considerava que todas as pessoas eram uma má influência para os seus filhos, motivo pelo qual comprou a quinta para manter os seus filhos afastados de toda a perversidade do mundo. As mulheres eram o grande pecado, o caminho para a perdição, pois todas, à excepção dela, eram  pecaminosas e impuras. Assim Augusta Gein, fanática religiosa, moralista   e   dominadora,   para   além   de   obrigar   os   filhos   a   trabalhar   única   e exclusivamente  na  quinta,  proibia-os  de  manter  qualquer  contacto  com  mulheres  e afirmava que o sexo apenas deveria existir para fins reprodutivos. Todos os dias, a mãe de Gein lia sermões do antigo testamento aos seus filhos, sobre os castigos de Deus.

Em 1940 o pai de Ed morre e em 1944 segue-se o seu irmão. Na data havia ocorrido  uma discussão entre os dois irmãos, em que Henry adverte o irmão para os abusos por parte da mãe, enquanto Ed rejeita esta ideia pois considerava a sua mãe uma santa,  uma  bondade  suprema.  A  verdade  é  que  Henry  morreu em  circunstâncias misteriosas, ele e Ed saíram para combater um incêndio que se espalhava pela quinta.

Segundo Ed, o seu irmão teria morrido  intoxicado pelo fumo. Mas o corpo de Henry apresentava escoriações no rosto, e foi encontrado num local intocado pelo fogo.

Agora, tudo que Ed tinha era a sua mãe e ela era tudo que ele precisava. Porém, em 29 de Dezembro de 1945, Augusta Gein morre após uma série de enfartes, ficando Ed a morar  sozinho.  Ed ficou extremamente abalado com a perda da mãe, a qual havia idolatrado apesar do seu comportamento dominador e abusivo. Foi, então, que a sanidade de Ed Gein começou a degenerar-se. Ed começou a estudar a anatomia feminina, mais particularmente a região genital.

Mas ler livros de anatomia não foi suficiente para Ed Gein, ele sentiu vontade de aplicar na prática os seus estudos. Passou a ler o obituário no jornal, e interessava-se particularmente pelo anúncio da morte de mulheres na faixa etária da sua mãe quando esta morreu.
Com a ajuda de um amigo, Gus, Ed começou a frequentar  os  cemitérios  locais,  exumar  os  corpos  recém enterrados  (previamente escolhidos pelo obituário) e levá-los para a sua casa, algumas vezes  carregando os corpos  inteiros  e  outras,  apenas  partes  deles,  satisfazendo  assim  as  suas  fantasias relativas à necrofilia e canibalismo.

Ed realizava experimentos com os corpos recém- desenterrados, dissecava-os, e removia a pele para costurar uma roupa de mulher, com seios e vagina, que ele usava em estranhos rituais em noite de lua cheia, para se sentir mulher,  saber  como é  ter  seios e  vagina.  Colocava,  igualmente,  os  órgãos  genitais femininos na roupa interior que vestia.

Dizem que Ed empalhou o corpo da sua própria mãe e se masturbava sobre o seu corpo, e ainda que ele teria removido sua pele para usa-la em seus rituais. Às vezes Ed vestia também as roupas da mãe, e ficava perambulando pela casa. Ed tinha os costume de confeccionar móveis e objetos feitos de pele, partes de corpos e ossos.

Mais tarde, começou a matar mulheres com idade e semelhanças físicas à sua mãe, alegando que era a própria que, através de vozes, o incentivava a matar.

A  primeira  vítima  foi  Mary  Hogan,  dona  do  bar  que  ele  frequentava,  em Dezembro de 1954. No mês de Novembro de 1957, Ed Gein voltou a atacar. Desta vez foi Bernice Worden dona da loja de ferragens que ele costumava frequentar. O corpo de Bernice foi  encontrado despido e decapitado com um corte que ia da vagina até o pescoço, pendurado de cabeça para baixo num gancho de açougueiro e amarrado com cordas. Os seus intestinos e  órgãos foram encontrados dentro de uma caixa e o seu coração estava num prato na sala de jantar.

Contudo, neste último homicídio acabou por deixar pistas que acabaram por o denunciar, deixou o seu camião estacionado à frente do local do crime toda a noite.

Ed Gein foi preso em 1957 em Plainfield, nos Estados Unidos.

Na sua residência, mediatizada como “a casa dos horrores”, a polícia encontrou um  crânio usado como tigela de sopa; um tambor feito com pele humana; um corpo decapitado e  cortado ao meio, pendurado no quintal; narizes num copo; um par de lábios pendurados num fio; um coração humano no forno; um cinto feito de mamilos; partes  de  diversos  órgãos  no   frigorífico,  extraídos  de  quinze  corpos  femininos diferentes; e nove vulvas dentro de uma caixa de sapatos.

Ed confessou que gostava de se vestir com as roupas e máscaras confeccionadas de  pele  humana  e  fingir ser  a  sua  própria  mãe.

Declarou,  igualmente,  que  não  se lembrava, ao todo, quantos assassinatos havia cometido.

À conversa com Édipo: O Complexo em Humanês

Um dos conceitos introduzidos por Sigmund Freud no seio da sua teoria Psicossexual do Desenvolvimento Humano que mais suscitou polémica entre os leitores foi, de facto, o Complexo de Édipo.

Ora por culpa do próprio S. Freud por não apostar numa explicação mais clara deste conceito ora por culpa dos leitores não lerem as entrelinhas, este termo ficou sempre à quem nas suas explicações e na sua demonstração prática.

Com este post desejo contribuir para uma melhor assimilação do que se trata o mais famoso Complexo da teoria psicanalitica, utilizando linguagem corrente para um melhor entendimento. Todavia, antes de explorar o termo na sua concepção prática, coloco aqui o Mito que deu origem ao Complexo:

O mito
“Laio, rei da cidade de Tebas e casado com Jocasta, foi advertido pelo oráculo de que não poderia gerar filhos e, se esse mandamento fosse desobedecido, o mesmo seria morto pelo próprio filho, que se casaria com a mãe.
O rei de Tebas não acreditou e teve um filho com Jocasta. Depois arrependeu-se do que havia feito e abandonou a criança numa montanha com os tornozelos furados para que ela morresse. A ferida que ficou no pé do menino é que deu origem ao nome Édipo, que significa pés inchados. O menino não morreu e foi encontrado por alguns pastores, que o levaram a Polibo, o rei de Corinto, este que o criou como filho legítimo. Quando ficou a saber que era filho adoptivo, Édipo foi até ao oráculo de Delfos para saber o seu destino. O oráculo disse que o seu destino era matar o pai e casar com a própria mãe. Espantado, ele deixou Corinto e foi em direcção a Tebas. No meio do caminho, encontrou Laio que pediu para que ele abrisse caminho para passar. Édipo não atendeu ao pedido do rei e lutou com ele até o matar.

Sem saber que havia matado o próprio pai, Édipo prosseguiu a sua viagem para Tebas.

O povo de Tebas saudou Édipo como seu novo rei, e entregou-lhe Jocasta como esposa. A verdade foi esclarecida (Édipo casara-se com a sua mãe), Édipo cegou-se e Jocasta enforcou-se.”

Do mito ao complexo

Sigmund Freud transpôs este mito para um fenómeno presente numa fase do desenvolvimento infantil que decorre entre os 3 e os 5 anos de idade (denominada Fase Fálica) onde, segundo o autor, a criança desenvolve sentimentos amorosos e hostis face aos seus pais. Na sua forma positiva, verifica-se que o filho experiencia desejos amorosos pela sua mãe e sentimentos de ódio pelo seu pai (na filha verifica-se o inverso, desejos amorosos pelo pai e sentimento hostil pela mãe), e na sua forma negativa verifica-se que a criança manifesta raiva pelo sexo oposto e o dito amor pela figura parental do mesmo sexo.

O complexo de édipo em humanês
Deixando de lado conceitos psicanalíticos, o complexo de édipo, em termos práticos, traduz-se, essencialmente, através de uma triangulação (Criança-Pai-Mãe) que, inicialmente, não é mais do que uma relação dual (Criança-Mãe).
Nos primeiros dois/três anos de vida do bebé, em termos gerais, o conforto, suporte e protecção é estabelecido de uma forma mais vincada pela mãe. Começando pela gravidez, seguido pelo período de amamentação e do contacto físico mais presente nos anos que se seguem, a mãe apresenta-se como a figura de destaque para a vida do bebé (relação dual mãe-bebé).
Por volta dos 3 anos de idade, a criança começa a integrar num mundo de regras e proibições (incentivada a deixar a chupeta, os castigos começam a surgir e os limites começam a fazer parte da vida da própria criança). Ou seja, esta fase edipiana é, essencialmente, uma fase de diferenciação em que a criança percebe que existe um mundo cultural e de regras nunca antes percebido e que os próprios pais pertencem a essa cultura, onde toda a atenção antes dada (conceito de narcisismo primário – Sua Majestade, o Bebé) já não será possível. Nesta fase a relação dual Mãe-Bebé é afectada por um novo membro, o Pai, estabelecendo-se, assim a triangulação Mãe-Pai-Bebé.
O pai apresenta, nesta fase, dois papeis de destaque: figura de autoridade, que impõe regras e limites e que promove a diferenciação da criança do seu mundo, assim como o papel de figura masculina (promovendo uma identificação com o filho e uma atracção por parte da filha, estabelecendo, para esta, um novo modelo de “paixão”). Nesta idade é comum ouvirmos os filhos a dizerem, por exemplo, “quero casar com a minha mãe”.
Ora, estas palavras não podem ser interpretadas com os nossos conceitos nem com a nossa percepção de adultos e sim com  o mundo infantil. Por exemplo, o ciúme que o filho sente ao ver o pai com a mãe, prende-se, apenas, pelo facto de a atenção da mãe ter sido, anteriormente, percepcionada para ele como uma totalidade na relação dual Mãe-Filho.
Assim nesta fase, num panorama psicanalítico, ocorre os primeiros desenvolvimentos da sexualidade, onde a criança se identifica com a figura do mesmo sexo, alimentando uma atracção pela figura do sexo oposto (génese da heterossexualidade).
Salienta-se, mais uma vez, que o conceito de sexualidade infantil (relacionado mais com a obtenção de carinho, prazer) não pode ser equiparado ao conceito de sexualidade adulta (muitas vezes associado unicamente ao acto sexual).

A não resolução do complexo
Foi apresentado o modo como ocorre a vertente positiva do complexo de édipo: identificação com o progenitor do mesmo sexo, marcada pela rivalidade e competição pela a atenção do membro do sexo oposto. Depois dos 5 anos, quando termina o complexo de édipo, dá-se a entrada para a escola o que facilita o desapego em relação à mãe e as interiorizações de regras e à nova fase do desenvolvimento: fase escolar e de socialização com o grupo de amigos.
Mas o que acontece se esta fase não for devidamente ultrapassada, ou seja, se ocorrer a vertente negativa: identificação com o membro do sexo oposto e desejo pelo membro do mesmo sexo?
Diversas são as pessoas que poderão ficar fixadas neste período edipiano, possivelmente por falta de autonomia oferecida pelas figuras parentais (com maior destaque pela figura materna).
Desta forma podemos observar, por exemplo, indivíduos do sexo masculino completamente submissos e imaturos, outros que procuram companheiras com imagem semelhante à sua própria mãe (veja-se o exemplo do famoso serial killer Ed Gein) ou ainda outros indivíduos que manifestam comportamentos efeminados uma vez que a hostilidade do pai e a super-protecção da mãe poderiam promover a identificação com o membro do sexo oposto (neste caso, com a figura materna) . No caso das raparigas com complexo de édipo invertido encontram-se presentes sintomas de ansiedade, grandes ligações com a figura materna traduzindo-se em falta de autonomia e, nalguns casos, depressão.

Do século XIX ao século XXI
Actualmente pode-se considerar que o complexo de édipo não é um fenómeno universal, atendendo que cada vez mais ambas as figuras parentais dispõem atenção, carinho e afecto de igual modo, e nalguns casos o pai até pode desempenhar um papel de maior destaque no cuidado dos filhos do que a própria mãe.
Todavia este fenómeno edipiano ainda se pode verificar em muitas situações, principalmente em contexto de consulta psicológica. Mães que não deixam os filhos crescerem ou pais demasiado autoritários podem vincar esta etapa fulcral no desenvolvimento infantil.