quinta-feira, 21 de julho de 2011

Um Novo Obrigado!

E assim, com cerca de 8 meses de existência, o Estranho Quotidiano atinge as 10.000 visualizações, com os seus 74 fieis seguidores.


Este post é dedicado a todos vocês, onde aqui registo um eterno obrigado pelas vossas críticas e opiniões que ajudam este espaço a crescer dia após dia.

Sugestões para novos temas serão sempre bem-vindas.


"10 Christmas Carols for 10 Psychological Disorders...." 

1. Schizophrenia
Do You Hear What I Hear?
2. Multiple Personality Disorder
We Three Queens Disoriented Are
3. Amnesia
I Don't Know if I'll be Home for Christmas
4. Narcissistic
Hark the Herald Angels Sing About Me
5. Manic
Deck the Halls and Walls and House and Lawn and Streets and Stores and Office and Town and Cars and Buses and Trucks and Trees and Fire Hydrants and ...
6. Paranoid
Santa Claus is Coming to Get Me
7. Borderline Personality Disorder
Thoughts of Roasting on an Open Fire
8 . Full Personality Disorder
You Better Watch Out, I'm Gonna Cry, I'm Gonna Pout, Maybe I'll tell You Why
9. Obsessive Compulsive Disorder
Jingle Bells, Jingle Bells, Jingle Bells, Jingle Bells, Jingle Bells, Jingle Bells, Jingle Bells, Jingle Bells, Jingle Bells ..
10. Agoraphobia
I Heard the Bells on Christmas Day But Wouldn't Leave My House
11. Senile Dementia
Walking in a Winter Wonderland Miles From My House in My Slippers and Robe
12. Oppositional Defiant Disorder
I Saw Mommy Kissing Santa Claus So I Burned Down the House
13. Social Anxiety Disorder
Have Yourself a Merry Little Christmas while I Sit Here and Hyperventilate.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Depressão vs Melancolia: Algumas Notas


Conceitos como tristeza, depressão, melancolia encontram-se intrincados no seio da nossa comunicação, presentes no dia-a-dia, vulgarmente confundidos ou reduzidos ao mesmo.

A tristeza aparece quando se perde algo ou alguém a que se estava fortemente ligado. Contudo, quando esse algo que se perdeu era já era visto como incerto e apenas mantido por uma crença relacionada a um sentimento de omnipotência, a tristeza é sentida, mas negada a realidade da perda – ou, mais precisamente, negado o sentimento de perda. E assim se instala a depressão. 

A depressão é, assim, a negação do sentimento de perda; está-se triste sem saber porquê.

Quando se perdeu alguém de quem se estava dependente, mas cuja dependência era sentida como uma inferioridade pessoal, da mesma forma a tristeza é sentida, mas negado o sentimento de perda. E, pela mesma razão, se instala um quadro depressivo.

O depressivo é um individuo com uma deficiência na auto-estima (no narcisismo para ser mais correcto). A sua representação e o seu valor próprio é confirmado e avaliado pelos outros, sendo estes o espelho da sua imagem,os que constroem a sua representação e provocam admiração e o dito amor.

Já a depressividade não é idêntica à personalidade depressiva corrente; precisamente, pelos  sintomas comuns da última (quebra de energia, falta de esperança no Outro, no mundo). Pelo contrário, os doentes têm energia, mas é uma energia de esforço. São pessoas com uma forte tendência para idealizar os outros (mergulharem na fantasia narcísica). Sobrevivem da idealização dos outros, idolatrando o ente amado, que adoram e veneram (numa posição submissa e algo penosa). Não esperam, nem obtêm, em significativa medida, a retribuição devida e desejável. Agradecem o simples facto de poderem amar. São felizes fazendo os outros felizes; felizes – à sua maneira, abdicando do desejo próprio que quase ignoram. Vivem, pois, num amor não correspondido. O que, necessariamente, é deprimente. Mas não sentem, não vivem a depressão.

No Eu destas pessoas padece um vazio existencial que necessita de um amor para o seu preenchimento estrutural, estruturado e estruturante. Mas o sujeito, o Eu, ignora essa necessidade; e, consequentemente, não procura satisfazê-la. Como resultado da insatisfação existente mas ignorada, gera-se uma raiva imensa apenas sentida como tensão, desconforto ou irritabilidade – ou nem sequer sentida – e quase sempre não reconhecida, não ligada a eventos, pessoas ou propósitos.

São extremamente inseguros e muito dependentes, embora a dependência seja pouco notada, porque encoberta pelos comportamentos de cuidar dos outros.

Em suma, «o melancólico não sabe o que lhe falta, mas sabe que lhe falta algo (um amor envolvente, sabemo-lo hoje em dia). O pré-depressivo não sabe sequer que lhe falta algo – apenas ficou, quando ficou, a sensação corporal vaga de um mal-estar indefinido.» (Matos, A.C.)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Tentação dos Deuses: Entre Doces e Gorduras


Com o aproximar da época balnear e com o calor à porta, os temas de esplanada começam a circular em torno de exercício físico, dietas e a construção do corpo «perfeito». Contudo, todas estas etapas têm um obstáculo como denominador comum: resistir aos doces e aos alimentos gordurosos. "Não consigo resistir a um bocado de chocolate"; "Eu bem tento e só começo a comer uma ou duas batatas fritas...mas quando dou por mim já comi um pacote". 
Porque é tão difícil resistir a este tipo de alimentos? 

Apresento-vos, sumariamente, duas hipóteses a terem em conta:

1 – Herança Histórica: Segundo o Evolucionismo, e a própria Psicologia Evolucionista, no meio natural no qual os nossos ancestrais coabitaram, os alimentos disponíveis eram escassos em gorduras ou açúcares (como é fácil de perceber) e os nutrientes eram pouco concentrados nos alimentos disponíveis. Assim, era necessário despender de uma grande porção de tempo e energia na procura de alimentos para suprir as necessidades de gorduras e açúcares. Devido a esta dificuldade, quando estes alimentos eram encontrados e alcançados, ocorria um consumismo em grande massa uma vez que não se poderia prever quando os encontrariam novamente. Para além desses factores, as calorias e as gorduras/açúcares (que acabavam por nunca ser em excesso) eram queimadas devido ao tipo de vida que os nossos ancestrais levavam, ao contrários do sedentarismo presente na sociedade actual (ver televisão com um pacote de batatas fritas ao lado). 

O que se verifica actualmente é que o Homem do Séc XXI continua a enveredar pelo consumo de alimentos gordurosos e açucarados como se esses fossem escassos no meio ambiente e como se exigissem um grande esforço físico. Será, assim, compreensível a taxa de obesidade mórbida que se tem vindo a observar nos últimos anos.

2 – Comportamentalismo: A segunda hipótese explicativa remete para as Teorias Comportamentalistas (assim, neste artigo vou deixar de lado a Psicanálise, baseando-me exclusivamente na teoria comportamental Estímulo-Resposta e da Influência Social de Bandura). 

No que remete para os maus hábitos, a influência social apresenta um grande impacto no nosso estilo de vida e, subsequentemente, nos nosso padrões comportamentais. Pensem em situações em que tentamos deixar de fumar mas num encontro entre colegas, começam a puxar do cigarro e, então, a restrição torna-se difícil ou quando tentamos fazer dieita e um amigo faz anos, e nos presenteia com um banquete suculento de chorar por mais. Mas a componente social não é a única (já não podemos culpar os outros!). Para além deste factor, verifica-se igualmente um reforço positivo de prazer imediato com estes alimentos. Ou seja, ao ingerirmos um chocolate, a estimulação prazerosa é imediata, sendo que a resposta exige pouco esforço, não sendo necessário mastigar algumas vezes para sentir o verdadeiro sabor,  ao contrário de uma ementa vegetariana onde, a nível de estimulação, a maioria dos alimentos necessitam de serem saboreados e digeridos num processo um pouco mais arrastado no tempo para se obter o referido prazer gustativo.

Além disso, o Príncipio do Prazer (ups, lá me deixei ir para a psicanálise) encontra-se visivelmente presente neste tipo de alimentos gordurosos e doces, isto é, a satisfação é imediata e encontra-se sempre garantida – uma tablete de chocolate da marca X terá sempre aquele sabor, será sempre saboreada, será sempre apreciada. Enquanto que uma salada, um peixe grelhado, depende de várias variáveis: qualidade do peixe, como de temperar, modo de grelhar, como é servido. Com os doces, ainda que os caseiros dependam analogamente, do processo de preparação, a estimulação gustativa é maioritariamente instantânea (a grande percentagem de hidratos de carbono, os chamados açucares,  é decomposta logo na boca. Assim se explica o porquê de as pessoas que ingerem doces em grandes quantidades e depois vomitam – como acontece na Bulimia – nunca têm uma aparência de magreza equiparável à Anorexia uma vez que os açucares já foram, de facto, digeridos, na sua grande parte, pelo organismo).

Como conclusão, algo pessimista, refiro que estamos condenados a apreciar com grande satisfação doces ou alimentos gordurosos. Todavia, depois deste artigo, poderão deixar de se culparem a vocês ou aos outros por estragarem a dieta. Culpem os vossos ancestrais e os vosso processos gustativos e neuronais. 

É mais fácil de lidar com isso.

domingo, 17 de abril de 2011

A Inveja, O Ciúme e... o outro.

Diariamente (ou quase diariamente) somos confrontados com notícias de crimes passionais, casos de violência doméstica e/ou violência de namoro. Não vou, de todo, focar-me em nenhum caso específico de agressão, nem proceder a qualquer elaboração de perfil psicológico de vítimas/agressores. Vou, sim, esmiuçar o que se encontra mais intrínseco e entranhado em todos estas situações: a Inveja, o Ciúme e… o outro.

A Inveja pode ser encarada como um sentimento muito primário, arcaico, vivido numa relação binária (a dois). Em termos simplistas, é querer algo que o Outro tem, implicando, igualmente, a destruição daquilo que me falta (incompletude narcísica) – "Eu quero aquilo, quero para mim e quero destruir o Outro". Exemplo prático: “Eu quero O carro que o João tem, quero muito aquele carro ou então que o João tenha um acidente e que parta o carro todo, assim já mais ninguém o tem.” 

É relevante não confundir o conceito de «inveja» com o de «cobiça». A inveja implica a destruição, aniquilação daquela parte da pessoa que Eu não consigo ter, enquanto na cobiça ambiciona-se algo igual ao que o Outro possui mas que não é exactamente o mesmo – “Eu tenho inveja dO carro dO João. Eu cobiço o carro que o João tem, gostava de ter outro igual”. 

No que remete para o Ciúme, tal como refere Melanie Klein, este é um avanço, em termos mentais, extraordinário: envolve a complexidade da mente. Enquanto a inveja envolve partes de pessoas, partir a parte que se quer destruir do objecto, no ciúme envolve a pessoa na sua totalidade, envolve uma triangularidade – desejo de vinculação – e um medo de perder o objecto de amor. Assim, a pessoa combate pela posse total e exclusiva do Outro, sabendo previamente que isso não é possível, pela consciência da existência de um terceiro elemento. Enquanto a inveja é dominada por um sentimento de falta e um desejo de apoderar-se, no ciúme está em causa um sentimento de perda ou ameaça de perda e um desejo de retenção. Num e noutro caso, o amor-próprio é altamente atingido – na inveja sob a forma de ressentimento, no ciúme sob a forma de humilhação.

Depois da Inveja e do Ciúme, é a vez do outro… A Gratidão.

A gratidão pode ser encarada como o pólo oposto da inveja. É, assim, o sentimento que possibilita alcance o lado Bom do Outro – a base das relações amorosas – e avaliar o que há de Bom em nós próprios. Aquele que sente gratidão pelo Outro, reconhece nesse mesmo Outro uma presença que se ausenta em si (o Outro tem algo que lhe falta). Podem pensar que este reconhecimento, esta consciência da minha falta inscrita no outro provocará qualquer tipo de sentimento depressivo no meu Eu. Pelo contrário. O esperado é o reconhecimento dessas mesmas faltas do meu Eu no Outro e tentar apoderá-las, não de uma forma destrutiva como é padrão do invejoso, mas sim como um processo normativo de troca nas relações.
Assim, os sujeitos invejosos, dominados por um Eu em desarmonia e enfraquecido, são «impostos» a procurar novos objectos de amor, uma vez que nenhum deles consegue satisfazer as suas necessidades (as faltas narcísicas) e as suas expectativas.

Em suma, deixo aqui uma fórmula do psiquismo criada por mim como forma de integração da informação exposta.


Explicação (tentando ser simples) - A dualidade integradora Amor(A)-Ódio(O) domina a instância do nosso ego (E). São os nossos dois pólos. Amor/Ódio, Prazer/Realidade, Vida/Morte. Associado ao artigo em questão, passamos para o ponto II. O Ciúme (C) é o denominador da instância maior Amor, uma vez que, como explicado no artigo, os ciumentos têm uma necessidade extrema pela procura de vinculação, com medo de perda de amor objectal. Assim como o Ciúme está para o Amor, a Inveja (I) está para o Ódio (O), com todas as pulsões agressivas características dos sujeitos invejoso - a destruição do objecto parcial ambicionado. Se ficássemos apenas com estes dois pólos, teríamos uma estrutura psíquica deficitária. Ao juntarmos G (Gratidão), juntamos a capacidade de projectarmos as nossas faltas, inseguranças e medos no Outro, onde construiremos, se tudo correr normativamente, uma relação empática com o Outro. Quando este terceiro passo se completa, estamos perante um psiquismo (Símbolo Psi), minimamente organizativo.


quarta-feira, 6 de abril de 2011

Morro sem ti... Vivo sem mim...

Dei por mim a pensar na morte e no significado que ela tem para a nossa vida e mais… a forma como a incorporamos banalmente no nosso sentido. E pensando na morte questionei-me sobre o real sentido de estar a «morrer» sem algo ou sem alguém.

Qual o significado-real da afirmação “Morro sem ti”? «Morrer» sem o Outro, ainda que na esfera simbólica, traduz a presença de um vazio interno esbatido na falta do Outro e um preenchimento do próprio imago quando o Outro se inscreve na nossa essência. Traduzindo… ao assumir a nossa morte sem o Outro, estamos a perpetuar a nossa própria morte como identidade própria uma vez que, nesse caso, encontramo-nos numa relação fusional com alguém onde as identidades se cruzam e se fundam. Se o Outro está, sou completo. Se o Outro não está, sou nada.

Todavia, “Estou a morrer sem ti” é, invariavelmente, uma proposição paradoxal, uma vez que na ausência do Outro a presença da Morte é uma constante-real no âmago da vida. A vida apenas subsiste inscrita no significado da morte onde na ausência da presença desse significado, o signo da vida carece da espontaneidade e da vivacidade que realmente lhe é característico.

Digo, a vida só ganha sentido se esse mesmo sentido tiver consciência da presença da morte, sendo que a morte só nos ganha significado se a vida que levamos tiver para nós um mesmo significado. Já alguém dizia "Vive como se fosse o último dia, pois um dia será mesmo o último."

Concluindo… Não se morre na ausência do Outro, vive-se, sim, com o pesar da nossa falta na ausência do Outro.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O Passado Existe? Uma reflexão...


"Só se cresce e progride quando o passado é história e o futuro uma incógnita".


Este "artigo" nasceu desta frase. Digo "artigo" porque de cientifico não tem nada, o que vou aqui expor não mais do que um momento de reflexão pessoal. Digo nasceu porque, de facto, desenvolveu-se no decorrer de uma discussão trivial do que é o passado.

A questão que predominou em toda a discussão foi, efectivamente, o que é o passado? É apenas pensamento? É apenas construção social? Que tipo de pensamentos? Emotivos? Que tipo de construção? Relaciona-se ao psiquismo humano? Que relação? Eis o meu vómito reflectivo...

Não creio na existência de um passado contemplado exclusivamente como um pensamento, independentemente de ter ou não a carga simbólica e emotiva que muitos vangloriam. A meu ver, e isto apenas numa reflexão pessoal, o passado é a base do nosso psiquismo, a sustentação de um presente que se espelha num futuro incerto, assombrado pelos fantasmas de um passado reprimido num momento desorganizado a que muitos chamam "hoje". 

Posteriomente a uma cogitação sobre o que é o passado e quais as implicâncias que tal conceito manifesta num presente que se transporta para um futuro, teorizei da seguinte forma toda essa evolução:

O passado pode ser encarado como o ID (ver post sobre Cisne Negro) da humanidade, é o aglomerado de pensamentos, desejos e fantasias que se foram adquirindo ao longo da nossa vivência que se vão tentando exprimir no nosso presente (EGO Humano). Contudo, como tudo na vida, este processo não é facilitado. É esmagado, é castrado por um futuro que teme em ser catastrófico (SUPEREGO), que tem a  carga moral suficiente para nos impedir de cairmos na falésia angustiante do desespero existencial do "hoje".

Enquanto escrevo isto, ocorre-me um novo insight… esta luta entre passado presente e futuro espelha-se num conflito edipiano da frustração humana… entre um Objecto, um Desejo e algo que impede a realização desse desejo. Isto é, em casos mais psicopatologiziantes (tenho o hábito neologizar, perdoem-me os leitores) o Eu (presente) tenta alcançar o Desejo de vivenciar o Passado, contudo a ameaça de um futuro agonizante que assume o Nome-do-Pai Lacaniano, insiste em cortar essa ligação, direccionando a pessoa para a via normativa. Quando o Nome-do-Pai não se impõe, a pessoa abandona a preocupação da construção de um futuro saudável, ficando presa na simbiose Passado-Presente, tal como a criança psicopatizada fica restrita à relação fusional (esquizoparanóide se preferirem) mãe-filho, não introjectando as leis paternas e sociais.

Se o passado é apenas pensamento não posso validar nem refutar na sua totalidade, é uma questão deveras complexa para alguém assumir qualquer posição extremista. Todavia, a meu ver, a existência humana que incorpora esses conceitos temporais de passado-presente-futuro, encontra-se circunscrita à triangulação edípica-base com que nos defrontamos no decorrer da nossa vida: Mãe-Pai-Criança, Eu-Pais-Outro, Eu-Outro-Companheiro, Objecto-Desejo-Proibição...

Acusem-me de pensamento psicanalítico radical, mas são estes orgasmos intelectuais que me estimulam a capacidade de percepcionar a realidade externa em cada ângulo, em cada prisma, em cada presença de ausência de radicalismos, em cada ausência de presença de dicotismos. 


terça-feira, 15 de março de 2011

Do Sono aos Sonhos: Experiências (Para) Normais

Usualmente questionam-me com algumas dúvidas a respeito do mecanismo do sono: «dormir 4h por dia faz mal?»,  «Não me lembro dos sonhos, isso quer dizer alguma coisa?», «Às vezes acordo com a sensação de estar a ser esmagado contra a cama, é assustador...», «É normal sonhar e saber que se está a sonhar?».

Pegando nalgumas dessas dúvidas, decidi dar lugar ao mundo dos sonhos neste post, tentando explicar como funciona o mecanismo normativo do sono e, posteriormente, esclarecer algumas destas dúvidas.


Entendendo o Mecanismo do Sono

O período do sono é dividido, essencialmente, em 4 fases ou etapas, como se pode verificar na figura que se segue. 


Após nos deitarmos e fecharmos os olhos, preparando-mo-nos para dormir, somos invadidos por ondas alfa que nos preparam para o período de sono. Quando adormecemos, entramos, então, num período de Fase 1 do sono que é caracterizada por apresentar sinais de alta frequência e baixa voltagem semelhante, porém mais lento, do que o estado de vigília (acordado). 

À medida que vamos avançando da Fase 1 para as Fases 2,3 e 4, verifica-se um aumento de voltagem e uma baixa frequência cerebral. Assim, a Fase 2 apresenta uma amplitude um pouco maior e uma frequência menor que a Fase 1. Com a entrada na Fase 3 verifica-se a presença ocasional de ondas delta (as maiores e mais lentas), sendo que a Fase 4 é definida apenas por estas mesmas ondas (entramos no sono profundo). 

Quando antigimos a Fase 4 do sono, permanecemos por um tempo nessa condição e voltamos, em seguida, para o sono da Fase 1. Todavia, esta Fase 1 não é igual à verificada pela primeira vez. A partir do segundo ciclo, a entrada nesta fase é acompanhado por movimentos rápidos dos olhos (o chamado sono REM) e por uma perda do tónus muscular do corpo (aquela visão por vezes cómica que vemos na pessoa que está ao nosso lado a dormir e com espasmos). Cada ciclo do sono (de uma Fase 1 a Fase 4) dura, sensivelmente, 90 minutos, sendo que uma grande porção deste tempo é passado na Fase 1 (como se pode ver no gráfico)

Sono e Sonhos

Antes de mais, sonhamos em todas as fases do sono. Contudo, lembramo-nos com mais detalhe dos sonhos associados à fase REM (fase 1). Ou seja, enquanto os sonhos nas fases Não-REM (2,3,4) giram muito em torno de experiências indíviduais («sonhei que caí»), nos sonhos REM somos capazes de contar uma história mais completa («sonhei que estava a passear, encontrei um amigo e ficámos à conversa»).


Curiosidades sobre o Sono e os Sonhos


- Estímulos externos podem ser incorporados nos sonhos (por exemplo, ao adormecermos numa noite tempestuosa, podemos sonhar com explosões).
-  Algumas pessoas afirmam que nunca sonham ou raramente sonham. Contudo, apresentam um sono REM à semelhança das pessoas que dizem que sonham muito. Se forem acordados na Fase REM, conseguem relatar os sonhos.
-  Erecções penianas não estão relacionadas com sonhos de conteúdo sexual, uma vez que bebés apresentam o mesmo tipo de erecções nocturnas. Existem duas hipóteses aceites para este fenómeno: circulação sanguínea por parte do corpo para manter o órgão irrigado ou acumulação de urina na bexiga, provocando um estímulo nervoso reflexo que favorece a erecção (esta última é a mais aceite).
-  Sonambulismo e sonhos: a maioria das pessoas acredita que o sonambulismo ocorre enquanto sonhamos, o que não corresponde à realidade. Esta condição é vísivel com mais frequência na última fase do sono, a Fase 4.
-  Se não sabem porque é que nos custa tanto levantar de manhã, eis a resposta: Cortisol, a anestesia humana. Actua no nosso corpo a partir das 7h da manhã e provoca em nós uma sensação de relaxamento muscular. Daí que ao acordarmos nos apeteça tudo, menos levantar.
- Porque é que dormimos?  Existem duas teorias explicativas deste nosso comportamento:
A) Teorias da Recuperação do Sono: estar acordado perturba a estabilidade fisiológica interna do corpo. O sono apresenta, assim, uma função de recuperação e de recarga das energias.
B) Teorias Circadianas do Sono: tem uma base evolucionista, ao defender que os humanos são programados para dormir à noite independentemente do que nos acontecer durante o dia. Segundo estas teorias, evoluímos para dormir porque o sono protege-nos de acidentes e de predadores nocturnos.

Análise Comparada do Sono

Quando comparadas as horas de sono com outros mamíferos, surge uma questão importante no que nos toca a nós, humanos: Será mesmo necessário dormir as 8h? Uma investigação com diversos animais verificou a seguinte distribuição de horas de sono por dia: Preguiça Gigante - 20h;  Gato - 14h; Macaco - 9h;  Cavalo - 2h. Foram encontrados com muitos mais animais, mas tentei ir aos extremos para depreender dois aspectos essenciais: primeiro o sono não é uma função superior exclusiva do ser humano, segundo não parece existir um número de horas médio para os mamíferos. Será, então, necessário dormir as 8h recomendadas?

Para isso, vamos recordar o caso famoso de Leonardo Da Vinci. O pintor italiano adoptou um sono polifásico que consistia na seguinte redistribuição: dormir 15 minutos em cada 4 horas, limitando, assim, o seu tempo de sono a 1,5h por dia. Em diversas experiências com humanos que tentaram adoptar este sistema de sono polifásico, os resultados foram surpreendentes e consistentes:
a) Antes de tudo, é necessário um longo periodo de adaptação a este ciclo, de cerca de 2 a 3 semanas.
b) Os individuos sujeitos à experiência mostraram-se satisfeitos e não evidenciaram danos em testes de desempenho.
c) Inicialmente, estes invidíviduos só apresentavam sono de ondas lentas, contudo, com o passar do tempo retomaram as proporções relativais usuais de sono REM e sono de ondas lentas.

Uma das conclusões deste e outros estudos similares foi que a privaçao de sono em humanos é que indivíduos impedidos de dormir passam a fazê-lo de forma mais eficiente no horário estipulado. Assim, em vez de demoraram mais tempo a entrarem no sono profundo ao dormirem 8h, com as 4 ou 5h diárias, entram mais facilmente nessa fase. Contudo, este sono, como foi referido, exige hábito.


O Sono e o (Para)normal

Diversas são as histórias que vulgarmente somos confrontados, ainda hoje, sobre experiências fora do corpo, ou a sensação de estarmos a ser esmagados por espíritos durante a noite. Para acabar este post em beleza, vou destroçar os corações dos mais crentes...

Os Espíritos: Paralisia do Sono é o nome do fenómeno que muitos retratam quando acordam, a meio do sono, enquanto o bloqueio do impulso motor ainda está activo. Estando o bloqueio motor activo, a pessoa não se consegue mover e experiencia uma sensação assustadora de estar a ser empurrada para baixo, como se «espíritos estivessem em cima dela».

A Alma Fora do Corpo: Esta sensação de termos a alma a sair do corpo, ocorre pela situação inversa à apresentada em cima. Ou seja, experiênciamos esta sensação quando estamos acordados e os nervos motores começam a ser bloqueados, preparando-nos para o período de sono. Assim, temos a sensação de um formigueiro e de uma leve levitação. É tudo cérebro meus caros.

por fim... 

Os Sonhos lúcidos ocorrem quando os lobos frontais (responsáveis pela nossa consciência, mediação de impulsos sociais, funções superiores, racionalidade) acordam durante o sono mas o bloqueio de sinais de entrada e de saída permanecem. Como os lobos frontais estão activos, conseguimos deduzir que, realmente, estamos a sonhar.